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Introdução

Este blog é dedicado à disciplina Teorias Clássicas da Antropologia, integrando o 4º semestre da licenciatura em Antropologia da Universidade Eduardo Mondlane. Pressionando esta ligação acede-se ao Programa de Teorias Clássicas da Antropologia.

Cada entrada deste blog é correspondente a uma aula. A sua disposição é descendente. Em cada entrada está definido o objectivo e apresentado o material para cada aula. Em alguns casos estão os materiais bibliográficos indicados, aqui deixados em suporte electrónico. É importante notar que nem sempre o aqui disponibilizado corresponde à edição apresentada no programa. Nesses casos é necessário fazer concordar os trechos indicados para leitura e discussão.

Em algumas entradas foram deixadas ligações a textos ou filmes que são material complementar. Estas são de leitura ou visualização facultativas, procurando alargar o espectro de informação e incrementar o espírito de pesquisa.

Aula 1: O enquadramento de Franz Boas

Enquadramento da perspectiva de Franz Boas.

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Franz Boas (1858-1942)

Sobre Boas ler este H. Lewis The Passion of Franz Boas

Boas, Franz, 1887, The Study of Geography

Boas, Franz, 1896, “The limitations of comparative method in anthropology

Boas, Franz, 1920, “The methods of ethnology

KUPER, A. (2008), A Reinvenção da Sociedade Primitiva. Transformações de Um Mito, Recife, Editora Universitária, pp. 161-186

 

Aula 1: Boas e o advento do trabalho de campo

Berthold Laufer, Waldemar Jochelson e Waldemar Bogoras realizaram pesquisa etnográfica e constituiram colecções na Siberia, Manchúria e na Ilha Sacalina. Laufer trabalhou entre os Nivkhi (Gilyak), Evenk e Ainu na Ilha Sacalina e entre os Nanai (Golde) no rio Amur. Bogoras estudou os Chukchi e Yupik (esquimós siberianos), e Jochelson pesquisou entre os Koryak, Yukaghir e Sakha (Yakut). Na parte americana do Estreito de Bering Franz Boas, George Hunt, John Swanton e Harlan Smith estudaram e realizaram colecções entre as populações da Costa Noroeste.

Mapa de Expedição Jesup, coordenada por Franz Boas, entre 1897-1902, desenhado por ele próprio.

(“Clique” na imagem para ela aumentar)

(Mapa da Sibéria)

Da esquerda para a direita: Vladimir Jochelson, Norman G. Buxton e Vladimir Bogoras. Retrato realizado em São Francisco pouco antes do grupo ter partido para a Ásia Oriental (pertencente ao Império Russo), em 1900. Bogoras e a sua mulher fizeram uma pesquisa antropológica geral sobre os Chukchi, e Bogoras fez também trabalho de campo linguístico entre os habitantes oryak na região Kamenskii. Jochelson e a sua mulher, Dina Brodskaya, fizeram pesquisa antropológica entre os Koryak nas regiões Penzhinskii e Kamenskii e  um pouco a sul, na baía Okhotsk, na península Kamchatka. Bogoras veio a estabelecer a Etnografia como disciplina na Rússia, e na União Soviética, com o seu colega Lev Shternberg. Jochelson emigrou para Nova Yorque depois da revolução de 1917 e publicou vários trabalhos importantes sobre as populações siberianas.

Fotografia de Vladimir Jochelson e Dina Brodskaya. Indivíduos Koryaks, na região Kamchatka, 1900-1

Fotografia de Vladimir Jochelson e Dina Brodskaya. Indivíduos Koryaks, na região Kamchatka, 1900-1

Individuo Yakut, fotografia Jochelson

Mais sobre Jochelson.

Aula 2: o advento do trabalho de campo no Pacífico Sul

Na Oceânia realizaram-se vários trabalhos desde finais de XIX. Alguns mapas, fundamentais para visualização dos terrenos etnográficos abordados:

Mapa da Melanésia (“clique” na imagem para a aumentar)

O Estreito de Torres, onde decorreram as expedições de 1888 (Haddon) e de 1898 (Haddon e seu grupo). Como refere Kuper o estreito (Torres Srait) era atraente pois entendido como “a porta de entrada nas culturas australianas”, as quais eram alvo de particular interesse pelos antropólogos da corrente anterior.

Ilhas Salomão, palco da expedição etnográfica de Rivers, Hocart, Wheeler (1907-1908).

Membros da expedição ao Estreito de Torres de 1898. Em pé (da esquerda para a direita): Rivers, Seligman, Ray, Wilkin. Sentado: Haddon

W.H.R.Rivers

Alfred Cord Haddon

Man with Harpoon and Two Dead Dugongs Outside Pole and Thatch House, 1888
Alfred Cort Haddon
Black and white photographic print, 4 inx6 in
National Museum of Natural History, National Anthropological Archives

Ceremony, 1888
Alfred Cort Haddon
Black and white photographic print, 4 inx6 in
National Museum of Natural History, National Anthropological Archives

Four Women and Young Boy, All in Costume and Wearing Ornaments, 1888
Alfred Cort Haddon
Black and white photographic print, 4 inx6 in
National Museum of Natural History, National Anthropological Archives

Estas são fotografias realizadas por Haddon nas ilhas do estreito de Torres, durante a sua primeira expedição em 1888. Foram mostradas no local, durante a segunda expedição, em 1898. Mais sobre os registos fotográficos de Haddon neste texto: Elizabeth Edwards, “Photography changes what we see, depending who’s looking.

Bibliografia:

KUPER, A. 1973. Antropologia y Antropologos. La Escuela Britanica, 1972-1973, Barcelona, Anagrama, pp. 15-39
KUPER, A. 2008. A Reinvenção da Sociedade Primitiva. Transformações de Um Mito, Recife, Editora Universitária, pp. 187-220

Aula 3: Malinowski e o trabalho de campo

A abordagem funcionalista: Malinowski e o advento do trabalho de campo como identidade da antropologia. Suas implicações teóricas.

No documento abaixo poderá encontrar a tradução portuguesa do texto introdutório a “Argonauts of the Western Pacific” de Bronislaw Malinowski. Bastar-lhe-á gravar o documento, originalmente publicado em “Ethnologia”, nº 6-8, 1997. E ao qual terá acesso através desta ligação.

É este o texto para leitura obrigatória para a aula: B. Malinowski, Os Argonautas do Pacífico Ocidental.

Mapa indicando as Ilhas Trobriand

Mapa pormenorizado da área abarcada pelo estudo de Malinowski.

Mapa do ciclo do “kula”.

Bastará pressionar o título seguinte para ter acesso à edição completa em inglês do livro “Argonauts of Western Pacific”, de Bronislaw Malinowski.

Bibliografia recomendada para a aula:

KABERRY, P. 1970 [1957], “Malinowski’s Contribution to Field-Work Methods and the Writing of Ethnography””, in FIRTH, R. (ed.) Man and Culture, London, Routledge & Kegan Paul, pp. 71-91

LEACH, Edmund 1970 [1957], “The Epistemological Background to Malinowski’s
Empiricism”, in FIRTH, R. (ed.) Man and Culture, London, Routledge & Kegan Paul, pp. 119-138

MALINOWSKI, B [1922], “Introduction: the subject, method and scope of this inquiry”, The Argonauts of Western Pacific (excerto em MALINOWSKI, B [1922], “Introduction to The Argonauts of Western Pacific: the method and scope of anthropological fielwork”, in SLUKA, J. & ROBBEN, A (eds.) (2006), Fieldwork in Cultural Anthropology: an Anthology, Blackwell, pp. 47-57)

Aula 3: Bronislaw Malinowski e o trabalho de campo

O trabalho de campo em Malinowski, suas implicações teóricas.

B. Malinowski fotografado no “terreno”

Poderão encontrar na ligação abaixo o livro organizado em homenagem a Malinowski por Raymond Firth (antropólogo aqui apresentado através de um texto de Sutti Ortiz, em inglês; e também em português em texto de Marcos Lanna) , uma colectânea intitulada “Man and Culture”, que congrega textos de vários dos seus mais ilustres discípulos.

Entre esses estão os textos de Kaberry e de Leach recomendados para esta aula. Então aqui está o Man and Culture: Raymond Firth (ed.), Man and Culture

Aula 3: Malinowski, alguma bibliografia

(1884-1942)

Deixo-vos uma bibliografia não completa de Bronislaw Malinowski:

(Os Argonautas do Pacífico Ocidental [Argonauts of the Western Pacific; an account of native enterprise and adventure in the archipelagoes of Melanesian New Guinea], 1922)

(Uma Teoria Científica da Cultura [A scientific theory of culture and other essays], 1944, edição póstuma)

(A Vida Sexual dos Selvagens [The sexual life of savages in north-western Melanesia; an ethnographic account of courtship, marriage and family life among the natives of the Trobriand Islands]. 1929)

(Crime e Costume na Sociedade Selvagem [Crime and custom in savage society], 1926)

(Magia, Ciência e Religião [Magic, science and religion and other essays] 1948, edição póstuma)

[Coral Gardens and Their Magic: A Study of the Methods of Tilling the Soil and of Agricultural Rites in the Trobriand Islands, 1935]

([A diary in the strict sense of the term] 1967, edição póstuma)

[Sex and repression in savage society, 1927]

Malinowski, The Family Among the Australian Aborigenes (1913)

Aula 3: Filme sobre Malinowski


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Aula 4: cultura e organização social

Conceitos de cultura e de organização social sob o funcionalismo

 

FORTUNE, R. B. 1977 [1963] Os Feiticeiros de Dobu. Lisboa, Bertrand, 36-111

RICHARDS, Audrey (1957) “The Concept of Culture in Malinowski’s Work”, in Raymond Firth (ed.), Man and Culture London, Routledge & Kegan Paul, pp. 15-32

Aula 5: Radcliffe-Brown

Radcliffe-Brown e o estruturo-funcionalismo. A abordagem antropológica a sociedades africanas.

Breve biografia de Radcliffe-Brown. Obituário escrito por Eggan e Lloyd Warner

Bibliografia recomendada:

GOODY, J. (1995), “The economic and organisational basis of British social anthropology in its formative period: 1930-1939: social reform in the colonies”, in The Expansive Moment. Anthropology in Britain and Africa, 1918-1970, Cambridge University Press, pp. 7-25

KUPER, A. (1973), Antropologia y Antropologos. La Escuela Britanica, 1972-1973, Barcelona, Anagrama, pp. 78-88

Aula 6: conceitos de função e de estrutura

Artefactos teóricos da “escola” estruturo-funcionalista – os conceitos de função, estrutura social e processo social em Radcliffe-Brown.

radcliffe-brown

Bibliografia

RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1979 [1952] “On the concept of function in social science”. In Structure and Function in Primitive Society. London, Routledge & Kegan

RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1979 [1952] “On Social Structure”. In Structure and Function in Primitive Society. London, Routledge & Kegan

Abaixo deixo versões traduzidas para português:

Radcliffe-Brown, “O Conceito de “Função” em Ciências Sociais

Radcliffe-Brown, “Sobre Estrutura Social”

Aula 7: processo social em Radcliffe-Brown

Artefactos teóricos da “escola” estruturo-funcionalista – os conceitos de função, estrutura social e processo social em Radcliffe-Brown.

RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1979 [1952] “The Mother’s Brother in South Africa”. In Structure and Function in Primitive Society. London, Routledge & Kegan

RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1979 [1952] “On Joking Relationships”. In Structure and Function in Primitive Society. London, Routledge & Kegan

Aqui fica o exemplar de Radcliffe-Brown,  Structure and Function in Primitive Society

Partilho esta palestra de K. Hastrup, parcialmente dedicada ao trabalho etnográfico  de Radcliffe-Brown, para visualização facultativa:

Aulas 8/9: parentesco e política

Parentesco e Política nas sociedades africanas na escola estruturo-funcionalista

DURKHEIM, Émile (s/d) A Divisão do Trabalho Social. Lisboa: Editorial Presença

RADCLIFFE-BROWN, A. R. 1982 [1950] “Introdução”, Sistemas Políticos Africanos de
Parentesco e Casamento. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian

Esta aula de 2001 Alan Macfarlane, o historiador e antropólogo professor em Cambridge, dedicada ao pensamento de Émile Durkheim é um material suplementar.

Aula 10: o conceito de descendência

O conceito de Descendência

meyer fortes

Meyer Fortes (1906-1983)

FORTES, Meyer (1982 [1950]) “Parentesco e Casamento entre os Ashanti”. In RADCLIFFE-BROWN & FORDE (eds.) Sistemas Políticos Africanos de Parentesco e Casamento. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian

Aula 10: uma palestra de Meyer Fortes

Para um contacto com Meyer Fortes aqui deixo uma sua palestra, já nos anos 1980s.


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Aula 11: os sistemas políticos linhageiros

Os sistemas políticos linhageiros.

NPG x24835; Sir Edward Evan Evans-Pritchard by Walter Stoneman

(Edward Evans-Pritchard, 1902-1973)

EVANS-PRITCHARD, E.E (1981 [1940]) “Os Nuer do Sul do Sudão”, In FORTES & EVANS-PRITCHARD (orgs.), Sistemas Políticos Africanos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian

Aula 11: Um filme sobre Evans-Pritchard

Um programa televisivo dedicado a Evans-Pritchard

Aula 12: cosmologias em sistemas linhageiros

Cosmologias em sistemas linhageiros.

bruxaria oraculos

EVANS-PRITCHARD, E.E. (1965 [1937]) “The Notion of Witchcraft Explains Unfortunate Events”, Witchcraft, Oracles and Magic Among the Azande. Oxford, Clarendon Press

Aula 13: a “escola de Manchester”

A “Escola de Manchester”: inflexão processualista nos estudos africanistas.

Max Gluckman e John A. Barnes

Max Gluckman, 1911-1975

Gluckman, Max, “Análise de uma situação social na zululândia moderna”. In Bela Feldman-Bianco (coord.) Antropologia das Sociedade Complexas, pp. 227-267

KUPER, A. (1973) Antropologia Y Antropologos. La Escuela Britanica, 1922-1972. Barcelona, Editorial Anagrama, pp. 175-200

Recomendo a leitura complementar destes dois textos:

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MITCHELL. J. C. (1956) “The Village Headman”, The Yao Village, The Manchester University Press, pp. 110-130

J. Clyde Mitchell, The Kalela Dance. Aspects of Social Relationships among Urban Africans in Northern Rhodesia

Aula 14: o culturalismo na antropologia americana

A escola culturalista americana – a formação social do indivíduo.

ruth benedict

(Um selo dedicado a Ruth Benedict [1887-1948])

BENEDICT, R. (s/d), Padrões de Cultura, Lisboa, Livros do Brasil, pp. 13-32, 276-304

Aqui: o obituário de Benedict escrito por Margaret Mead.

Aula 15: cultura e linguagem

O conceito de Cultura e as suas relações com a linguística.

lee whorf

Benjamin Lee Whorf (1897-1941)

LEE WHORF, B. (1971 [1939]) “La rélacion del pensamiento y el comportamento habitual com el lenguage”, Lenguaje, Pensamiento Y Realidade. Barcelona, Barrau

Aula 16: indivíduo e sociedade

Articulação indivíduo-sociedade e estudos de género.

mead
Margaret Mead (1901-1978)

MEAD, M. (1949), Male and Female. A Study of Sexes in a Changing World, London, Victor Gollancz, pp. 245-263

Aula 16: Margaret Mead em “Tales from the Jungle”

Este é um episódio da série televisiva “Tales from the jungle”, dedicado a Margaret Mead. Para ver o episódio completo terá que accionar os seis excertos (todos aproximadamente com 10 minutos) que abaixo estão colocados sucessivamente.


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Aula 16: documentários sobre Margaret Mead


(Coming of Age)

(Margaret Mead and Samoa)

Aula 17: padrões e transformações

Padrões e transformações como abordagem.

kroeber
Alfred L. Kroeber (1876-1960)

KROEBER, A. (1948; 1937) “The Nature of Culture”,“Patterns”, “Cultural Intensity and
Clímax”, MEAD & BUNZEL (eds.) (1960) The Golden Age of American Anthropology.
New York, George Braziller

Aula 18: Marcel Mauss, a dádiva e a reciprocidade

Marcel Mauss, Sociologia e Antropologia, onde se incluem dois textos introdutórios de Gurvitch e de Lévi-Strauss, bem como o “Ensaio Sobre a Dádiva”.

Marcel Mauss (1872-1950)

Para além dos dois textos recomendados na bibliografia propõe-se ainda a consulta ao texto de Louis Dumont, “Marcel Mauss: uma ciência em devenir”, um artigo em Louis Dumont. Individualismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna (Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1993) Um livro  facilmente acessível na biblioteca da faculdade.

Deixo ainda ligação para este texto: Seath Leacock, 1954 “The Ethnological Teory of Marcel Mauss”, American Anthropologist, 56: 58-71.

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 Como leitura complementar deixo:

 

MAUSS, Marcel. A Coesão social nas sociedades polisegmentárias. Trad. Mauro Guilherme Pinheiro Koury. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, http://www.rbse.rg3.net, v.3, n.7, pp.141-158, João Pessoa, GREM, Abril de 2004.

 

A coesão social nas sociedades polisegmentárias.

por Marcel Mauss – [*]

A questão posta à mesa, neste início de conversa, versa sobre o como é difícil obter aprovação em relação a si mesmo.

Foi necessário encontrar um método de observação para os etnógrafos, que os permitisse caminhar, e que os permitisse analisar o fenômeno geral da vida coletiva. Que elevasse a observação, enfim, para o plano do que comumente se chama de sociologia geral, no que diz respeito a uma sociedade definida e não para toda sociedade possível.

A categoria fenômeno geral da vida social é difícil de precisar. Ela cobre, em primeiro lugar, um número considerável de fatos já estudados de modo literário pela antiga «psicologia social», como a de Taine. Através dela distingue-se o caráter social, a mentalidade, a moralidade, a crueldade, e toda gama de noções que não são definidas, mas que todo mundo aplica muito bem.

Concerne assim aqui, estritamente, de converter a sociologia inconsciente em uma sociologia consciente, segundo a fórmula que Simiand anteriormente opôs às do Senhor Seignobos. Para que a etnologia fosse completa era absolutamente necessário encontrar os meios de expor os fatos sistematicamente, sem literatura. Falarei, aqui, simplesmente, de uma das questões levantadas.[fim pág. 141]

Há uma necessidade absoluta de tratar de tal assunto. As sociedades que estudamos e que nossos etnógrafos terão que observar, em particular, nas colônias francesas, são de um tipo tal que, se poderia dizer, localizam-se em formas superiores às formas australianas, chegando mesmo às formas próximas das sociedades que deram luz às nossas. A família de Iroqueses[**], portanto, está muito distante da família primitiva, pode-se mesmo considerar que ela possui uma forma mais avançada do que a família hebraica. Todas as sociedades se encontram em diferentes estágios. As sociedades negras da África, por exemplo, eu as considero, como equivalentes, e bastante superiores ao que foram as sociedades Alemãs ou Celtas. Como observar, então, nas sociedades ao mesmo tempo ainda selvagens e já um pouco evoluídas, os fatos que dizem respeito à coesão social, à autoridade, entre outros?

A pergunta se apresenta, imediatamente, não apenas em analogia com as instituições examinadas uma a uma ou as representações coletivas estudadas em separado, mas com respeito ao agenciamento geral de todos esses fatos em um sistema social. Como descrever este fato, quem e o que serve de solda para toda sociedade e molda o indivíduo, em termos que não sejam demasiado literários, inexatos e pouco definidos?

Está claro, além do mais, que alguns problemas postos por nossos regimes sociais não se colocam às sociedades levantadas pela etnografia e que estas puseram para nós alguns outros. Vamos aqui, então, tratar do principal. Nossas sociedades para nós são relativamente unificadas. Todas as sociedades que descrevemos possuem um caráter preciso, já indicado nas Regras do Método de Durkheim, que é o de serem sociedades polisegmentárias. Porém, um dos problemas gerais da vida social, é o chamado problema da autoridade e que nosso saudoso amigo Huvelin o transformou, precisamente, em um problema sobre a Coesão Social.[fim pág. 142]

O curso de Huvelin sobre esta questão, infelizmente, não foi publicado. Ele teria sido fundamental, especialmente, no tratamento da questão do Estado. Eu não conheço o conteúdo dele neste ponto. Eu precisei pensar, então, sozinho sobre este tópico. Eu me satisfaço em renunciar definitivamente – embora tenha hesitado por muito tempo, e hesito novamente – em considerar o Estado como a fonte exclusiva da coesão nas sociedades. Então, no momento, – embora não atribua mais ao Estado o caráter exclusivamente jurídico e acredito que a noção de soberania seja aplicada a toda vida social -, creio que o Estado, também, não seja o dispositivo legal único da coesão social em nossas sociedades. Pelo contrário, no que concerne à etnologia, a noção de soberania não esvazia as formas da coesão social, nem mesmo as de autoridade, na medida em se encontra dividida entre segmentos múltiplos e sujeita a múltiplas sobreposições. Sobreposições que são, por sua vez, uma das formas da coesão.

É aqui, acredito, que os fatos podem ser apresentados. Nós todos somos parte de uma idéia um pouco romântica da existência de um tronco original de sociedades: o completo amorfismo da horda, inicialmente, depois do clã, até as formas de comunitarismo que resultam a seguir. Quem sabe passemos várias décadas para nos desfazer, eu não digo de toda a idéia, mas de uma parte considerável destas idéias. É necessário, contudo, procurar estudar sobre o como, o que e o porque da organização dos segmentos sociais, como se deu a organização interna destes segmentos, além da organização geral dos segmentos entre si, que constitui a vida geral da sociedade.

Nas sociedades polisegmentárias de dois segmentos, a mais simples que se possa supor, é difícil de apreender como a autoridade, a disciplina, a coesão se estabelece, desde que existam dois clãs e que a vida orgânica do clã A não seja o do clã B. Na Austrália (Victoria, Nova Gales do Sul), por exemplo, a fratria do Corvo não é a fratria do Falcão. Podemos conceber, contudo, uma divisão do trabalho social mesmo nas formas mais elementares – nas divisões mais simples que possamos imaginar. O amorfismo, assim, é uma característica do funcionamento[fim pág. 143] interior do clã, e não da tribo. A soberania da tribo, as formas inferiores do Estado conduzem, para além destas divisões, as oposições entre os sexos, as idades, as gerações e as que se realizam entre os grupos locais. Crê-se, às vezes, que contestar estas oposições de sexos, idades e gerações, contradiz a visão gregária e meramente coletiva que Durkheim teria tido do clã. De fato, estas observações se encontravam latentes nos trabalhos de Durkheim e de todos nós. É apenas uma questão de melhor clarificá-las.

1. O grupo local: a idéia de uma sociedade que funcionaria como uma massa homogênea, como um puro e simples fenômeno de massa é uma idéia que é preciso aplicar, certamente, mas só para certos momentos da vida coletiva. Eu acredito ter dado um exemplo de escolha deste princípio de «dupla morfologia», a propósito dos Esquimós. Mas em quase todos os lugares é a mesma coisa. Vivemos alternadamente em uma vida coletiva e em uma vida doméstica e individual. É incontestável que são em momentos de vida em coletividade que as novas instituições nascem, que são em estados de crise que mais notadamente elas se formam, e que é dentro de uma tradição, na rotina, nos ajuntamentos regulares que elas funcionam. Mas, o que também é igualmente incontestável, é que em todas as sociedades, das mais antigas conhecidas até as nossas, há uma espécie de momentos de retração mais ou menos intensos do indivíduo e da família em relação aos estados de vida coletiva. Vamos apresentar esta idéia em um caso concreto.

Eu recebi hoje mesmo de nosso amigo A. R. Brown um trabalho muito interessante, a bem dizer, o primeiro sobre a morfologia social australiana de que sentíamos falta completamente. Ele menciona a importância e descreve com insistência a influência da horda, do campo, e dos grupos locais, – melhor até do que o Senhor Malinowski e ele até então tinham feito, – sobre a vida social. As tribos australianas são divididas e vivem em pequenos grupos que, fato curioso, não abonam nossas previsões estatísticas. Elas são compostas de 4 a 6 famílias de aproximadamente trinta pessoas.[fim pág. 144]

Há um máximo e um mínimo. Deste modo, como conseqüência, a «horda» talvez possa existir com sua própria comunidade e igualdade. O seu amorfismo incontestável é em todo caso muito conhecido e bem observado. Mas, como se pode ver, este amorfismo envolve de modo constante o polimorfismo das famílias.

Tem-se o hábito, contudo, de representar a família australiana como completamente isolada. Não! Ela é apreendida através do pequeno grupo local. Então avançamos muito: entre os que acreditaram observar o isolamento e os que acreditaram apenas no relacionamento do clã. A diferença que existe entre o que Durkheim nos ensinou há quase quarenta anos, e o que nós observamos agora nestas mesmas tribos, é que o grupo local que para Durkheim era um grupo de formação muito secundário, nos aparece como um grupo de formação primário.

Observações deste tipo podem ser repetidas novamente em outro lugar. Eu apresentei os australianos, por serem considerados extremamente primitivos neste aspecto. Eu poderia, contudo, ter oferecido outros exemplos também, com outros povos vistos como menos primitivos.

2. A divisão por sexo é uma divisão fundamental que sobrecarregou com o seu peso todas as sociedades a um grau que não suspeitávamos. Nossa sociologia, neste ponto, se encontra muito abaixo do que deveria se encontrar. Poderia-se dizer aos nossos estudantes, especialmente àqueles e àquelas que um dia farão observações sobre o assunto, que até então só fizemos a sociologia dos homens e não a sociologia das mulheres, ou dos dois sexos.

A divisão em sexos exprime de forma acentuada a divisão técnica do trabalho, a divisão econômica dos bens, a divisão social da sociedade dos homens e da sociedade das mulheres (Nigritie , Micronésia), as sociedades secretas, as linhagens femininas (Noroeste Americano, Pueblos ), a questão da autoridade e da cooperação. Um dos elementos fundamentais da ordem são as mulheres. Assim,[fim pág. 145] por exemplo, a vendeta na Córsega é dirigida por mulheres, como também o é entre os povos do oeste-australiano. Como pode ser visto, também, nos textos notáveis que temos de alguns «voceros», compostos por velhos australianos da tribo de Perth, na primeira metade do século de XIX.

3. A divisão por idade é não menos importante. Ela recorta naturalmente os diferentes, e como. As divisões por idade, por exemplo, para os países africanos (Nigritie, Sudão, Bantú), são dominantes. Os povos iniciados formam uma confraria ou, mais precisamente, uma fraternidade; são os irmãos e a população da mesma idade os seus confraternos. Jeanmaire conhece bem esses fatos em relação à Grécia. Estas divisões se encontram, além do mais, em quase todos lugares. Por exemplo, entre os famosos Aruntas. Estes se dividem em 5 classes de idade e não há possibilidade de se alcançar à última classe ativa antes da idade dos trinta, trinta e cinco anos. Nelas, o homem é submetido a uma série de iniciações e, – para um certo ponto de vista, sob o qual me incluo, neste momento – de intimidações (brimades) , que duram por um certo tempo de sua vida.

Nas sociedades mais avançadas, do Noroeste americano, por exemplo, os momentos de chegada ao topo dos graus de uma confraria, – mesmo quando se têm direitos de nascimento e não só direitos precários de ofícios (lieutenance), – são próprios do fim da maturidade. E geralmente, imediatamente depois, vem a aposentadoria, mesmo para os príncipes: quando os poderes de dançar que caracterizam a possessão de um espírito foram perdidos. O teste da dança, deste modo, é um excelente teste. Granet informou-nos admiravelmente, por muito tempo, dele em relação à China.

Eis a divisão por idades.

4. A divisão através de gerações. Esta geralmente não coincide com a anterior, como elas coincidem em nossa sociedade. É necessário perceber que em uma[fim pág. 146] sociedade primitiva ou arcaica, o patriarca possui o controle sobre as crianças durante um lapso de tempo maior do que na nossa e ele exercita freqüentemente os seus poderes sobre várias mulheres, e de todas as idades. Este controle nasce, constantemente, pelo fato das suas crianças possuírem uma chance de sobrevivência muito menor do que na nossa sociedade, porém espaçado em um número considerável de anos. De forma que um indivíduo pode ser mais jovem do que os seus sobrinhos.

Ocorrências deste tipo são encontradas, por exemplo, nos bastidores de toda história das instituições que distinguem entre o filho mais velho (puîné) e o primogênito, e na base de todas as instituições onde um pai que possui o poder de escolha entre uma numerosa descendência, – de numerosas mulheres em particular, – procura dar a um de seus filhos os títulos de bens que dispõe (especialmente em castas e classes elevadas). Assim, enquanto geralmente em nossa sociedade o sistema de idades recupera o sistema de gerações, o tio é apenas uma pessoa excepcionalmente mais jovem do que seu sobrinho e sua sobrinha, nestas outras sociedades, geralmente, só se recupera um pouco da outra, talvez a metade e freqüentemente nem isso.

Os povos se organizam, então, de dois modos: por idades e através de gerações. Isso ocorre, até mesmo, em sociedades tão elementares quanto as sociedades australianas, e especialmente naquelas imediatamente após a australiana, como as da Melanésia, da América do Norte, entre outras. É no interior de cada geração que a comunidade e a igualdade no clã e na família se fazem, como se inventam, também, no interior de cada categoria de idades na tribo ou, igualmente, no interior de todas as idades dentro do clã, ou do grupo local.

Enfim, deixe-nos lembrar: é dentro do mesmo sexo que há uma comunidade e uma hierarquia (caso das sociedades de homens, em particular) e, também, dentro da mesma geração de todo sexo, embora os membros difiram extremamente de idade e que todos os filhos, netos, e bisnetos de um antepassado na grande família indivisa (América do Norte, África, etc.) sejam iguais entre si. Cada geração, desta[fim pág. 147] forma, possui o seu modelo de comunidade, e a sua posição vis-à-vis às outras gerações.

Vê-se bem, deste modo, o sistema no interior dos grupos de gerações sobrepostos, na representação sob a forma de dois punhos fechados e unidos pelas faces externas de dedos encaixados, – faço aqui o gesto expresso -, dispostos uns entre os outros, e onde prevalecem outros tipos de comunitarismos e outras formas de igualitarismos: de sexo, de idade, de grupo local, de clã. De vez em quando, nas organizações especiais como o exército onde a categoria de idade e a sociedade dos homens prevalecem, aparece, nos estratos mais baixos, especialmente, casos onde a comunidade é quase absoluta (como nas sociedades da América do Norte e nas Pradarias). Nós mesmos estávamos há pouco nessas condições. Deste modo, pode-se dizer, que há reformas no igualitarismo e no comunitarismo que podem ser consideradas reformas necessárias. Não são, contudo e de forma alguma exclusivas de um ou de outro igualitarismo, não são mais do que formas tomadas a partir da hierarquia de um tipo específico de igualitarismo.

É necessário, então, que compreendamos os fatos. A cooperação social, esta estranha forma de colaboração, realiza-se pela adesão e pela oposição, e pela fricção, como em uma fábrica de tecidos, ou em uma fábrica de cestos. Por exemplo, na nova edição do livro sobre os Aruntas , o saudoso Senhor Baldwin Spencer nos fornece o plano da arena tribal através dos grupos locais. Este plano confirma o que Durkheim e eu tínhamos suposto a propósito das classificações por clã. Todos os clãs se encontram dispostos, rigorosamente, segundo sua origem, quando penetram o palco tribal. É no interior do círculo completo, contudo, em todo o colorido da Rosa dos Ventos, que eles realmente se equivalem enquanto iguais, independentemente do fato de que eles só se localizem ritualmente através da aglomeração das pequenas hordas.[fim pág. 148]

É necessário que imaginemos os fatos. Para os observadores futuros, as observações deste tipo podem ser úteis para a pesquisa. É necessário, então, que representemos as coesões sociais, desde a origem, como misturas de amorfismo e de polimorfismo.

Podemos sentir agora como, desde o começo da evolução social, os diversos subgrupos, – mais numerosos às vezes do que os que clãs que eles seccionam, – as várias estruturas sociais, em uma palavra, podem se sobrepor, cruzarem-se, soldarem-se, e continuarem coerentes.

Está aqui colocado – por oposição ao problema da comunidade e no seu interior – o problema da reciprocidade ou, inversamente, o problema da comunidade que força a reciprocidade. Um exemplo pode ser visualizado na vida familiar atual, sem precisar ascender novamente para as famílias do tipo de grupo político-doméstico; estes grupos vivem uns com os outros em um estado ao mesmo tempo comunitário ou individualista de reciprocidades diversas, com resultado de bons serviços mútuos. Alguns sem espírito de recompensa, outros com recompensa obrigatória, outros enfim, em resumo, com sentido rigorosamente único, porque tem que se fazer pelo filho o que gostaria que o pai tivesse feito.

A reciprocidade pode ser direta ou indireta. Há a reciprocidade direta no interior de toda classe de idade; todos se encontram em um estado de troca recíproca no campo social, esta é uma categoria ligada ao comunitarismo. Em um certo número de sociedades (Austrália Central, América do Norte, Este e Oeste), por exemplo, todos os cunhados de dois clãs têm direito, ou não têm direito em certos casos, não apenas às irmãs, mas também à hospitalidade, à comida, à ajuda militar e jurídica entre outras. As disciplinas para as categorias de idade e para a da reciprocidade simples se acumulam, nos casos onde o parentesco não está exclusivamente no nome, mas no fato rigoroso da reciprocidade, até mesmo entre duas gerações diferentes. Por exemplo, nas sociedades onde avô e netos são chamados um e outro por só um nome, o avô pode conferir ao neto os mesmos benefícios que estes o devolvem e, ao mesmo tempo, o pai pode ser pensado[fim pág. 149] através da mesma razão – a identidade do neto e do avô – e abonado com deferência aos dois (Noroeste da Caledônia, Norte-Oeste Americano, Ashanti , etc.). Vê-se, assim, que o amorfismo e o polimorfismo não são exclusivos e que a reciprocidade os une. Em numerosos casos, é o tataravô que é idêntico ao tataraneto (Ashanti, etc.); e, freqüentemente, o filho é superior ao pai, seja aqui qual for à relação recíproca e a propriedade recíproca, e os benefícios recíprocos diretos.

Outras reciprocidades são indiretas e nossa sociedade ainda as tem em suas premissas. Faz-se necessário domar um número considerável de momentos: por exemplo, nas provas vexatórias de iniciação, de entrada em uma nova carreira, etc. Normalmente, quando sou o candidato, não posso devolver a um membro do Instituto o que ele me faz; tudo que eu poderei fazer é (na ocasião) devolver o troco da mortificação por que passei a um outro candidato. Permita-me repetir: é o que o seu pai fez para você que você pode retornar ao seu filho. Está aqui o que chamo de reciprocidade alternativa indireta. Acha-se a reciprocidade indireta simples, em particular, no caso das alianças, por exemplo, com relação aos sogros, aos cunhados e cunhadas. Porque ela segmenta em vários sentidos uma só massa de homens e mulheres.

A divisão por sexo, por gerações e por clãs faz um grupo A ser membro de um grupo B, mas estes dois grupos A e B, chamados de fratrias, já se encontram divididos por sexos e gerações. As oposições cruzam as coesões.

Deixe-nos examinar, por exemplo, a situação dos pais através do chiste (América do Norte, Bantú, etc.), como já indiquei em um pequeno trabalho anterior. Normalmente estas relações são aquelas efetivadas entre cunhados e cônjuges de direito vis-à-vis de cunhadas e mulheres de direito (clã, sexo, geração e idade às vezes determinam os dois grupos respectivos). Estas relações são comandadas por diferentes fatos e, em particular, através do princípio de[fim pág. 150] reencarnação expresso por meio de outros fatos. De mais, pode-se fazer troça com a sogra, ou (o que é semelhante), é preciso que isso, absolutamente, seja evitado. O que é a mesma coisa, isto é, ao mesmo tempo em que ela se encontra interdita para o seu genro, pode conter em si alguns outros direitos excessivos sobre ele, como, por exemplo, em certas tribos (Austrália do Sul) cujo uso foi descrito muito bem por Howitt.

Contudo, assim que um genro retorne ao jogo, abre passagem para os sogros. Vê-se, aqui, um sistema de troca, de uma comunidade condicionada por separações. Os genros estão contrapostos aos seus sogros como nós estamos em relação a um credor muito exigente. Há um comunitarismo desde que os sogros possuam direito a este jogo e os genros não. Mas, ao mesmo tempo, há uma organização verdadeira para todos conduzida, até no mínimo detalhe, ao indivíduo. Há reciprocidade indireta, se o genro tem a sua volta seus genros a quem devam alternativas.

Todos os grupos, assim, se sobrepõem uns aos outros, e organizam-se de acordo com os outros em troca dos benefícios recíprocos, na trama das gerações, dos sexos, através da rede de clãs e das estratificações por idade.

Torna-se mais fácil entender agora como uma forma disciplinar, uma autoridade e um tipo de coesão podem se elucidar. Quando se consideram apenas dois clãs completamente amorfos pode-se, às vezes, supor, ao contrário, – como por exemplo, em Nova Guiné, na América do Norte, e em uma parte de África, – que a sociedade se dividiu em dois blocos quase que completamente opostos. Fazer compreender a moralidade complexa que resulta destas complicações, contudo naturais e simples, lembremos, por exemplo, de um fato que Senhor Labouret e seus informadores indígenas não entenderam muito bem. Este fato encontra-se em um livro recente publicado pelo Instituto de Etnologia sobre as Tribos do grupo[fim pág. 151] Lob (Alto Volta)!

Acredito que Senhor Labouret descreveu um fato muito importante que, inclusive, já suspeitávamos. Algo semelhante às classes matrimoniais australianas na África ou, o que é a mesma coisa, às organizações quatripartidas da tribo (duas fratrias divididas em outras duas, provavelmente através das gerações), o que Senhor Labouret chamou de clãs aliados, dois a dois. Ele não foi capaz, contudo, apesar das novas investigações nesta temática, de descobrir nem a exogamia destes clãs, nem suas uniões matrimoniais. Estas tribos são divididas em A e B, e subdivididos em A1 e A2, B1 e B2. Em minha opinião estes clãs se encontravam em relações de cunhados ou de sogros, ou uns com relação aos outros, (como no caso dos Ashantis).

Quando os A2 estão em batalha com os B2, são os B1 que cessam a peleja dos A2; os B2, por seu turno, deteriam os A1. São estas as intervenções autorizadas entre sogros e genros. Os cunhados e os irmãos legitimam os clãs na batalha, segundo penso. Em todo caso, os aliados são os que detêm o direito de falar suas verdades a todos os membros da geração prévia ou posterior. Os outros, em estado de oposição constante uns aos outros, mantêm para si a etiqueta.

Poderia-se afirmar, neste caso, que há um direito de policiamento de uma geração sobre outra geração, de outra fratria de um determinado sexo, e um direito de comunidade dentro de uma geração de duas fratrias. Esta instituição identificada em toda a África negra ocidental demanda ainda de estudos aprofundados.

Vamos mais adiante, a propósito destas mesmas tribos. Elas reconhecem direitos às famílias. Há, por outro lado, dentro das próprias gerações direitos individuais.

O primogênito, em uma grande família indivisa é distinguido. Ele é o patriarca a partir do momento onde o último descendente da geração prévia se encontrar extinto. Assim, um primogênito se determina em um grupo. Ele é o sobrevivente[fim pág. 152] mais velho da mais velha geração. Há um comunitarismo a partir dele, porém ele é um chefe regular, um indivíduo determinado. Quando o último membro de uma geração desaparece, a geração que segue passa a chefia da família para o primogênito, e assim sucessivamente (é o caso Ashanti).

A hierarquia de mulheres se estabelece, por outro lado, no interior destes mesmos grupos. As mulheres, sorte de rainhas mãe, mantém os seus títulos mesmo na viuvez e, como é a primeira das mulheres casada com um chefe que é a chefe das mulheres de todos os homens agrupados ao redor do patriarca (mais justamente do chefe), pode ainda conduzir mudanças no interior do sexo feminino em relação ao outro sexo.

Dentro de uma geração pode, então, haver uma disciplina de grupo e também a existência de autoridades múltiplas, além do chefe. O engano que cometíamos era o de nos preocupar exclusivamente daquilo a que chamávamos chefia, como sendo apenas a chefia pública. A chefia na África, como descrevemos, é um fenômeno, eu não digo de última formação, mas de criação secundária. Ela nos aparece apenas no interior das formas rigorosamente jurídicas, no poder do soberano, ou na organização militar, mesmo que estas forças não correspondam necessariamente a uma ou a outra.

Os fatos, a partir de entçao, podem se complicar e o que concebemos como único pode se dividir. Tomemos, por exemplo, aqui, o chefe de guerra e o chefe de paz ou, como em Porto-Novo , o rei do dia e o rei da noite ou, ainda, como no Jaraïs (Indochina) onde se tem um rei de Água e um rei do Fogo. É necessário dois deles, de acordo com uma definição que parece ser inconcebível apenas para nós, pois é imprescindível ao rei que fique sempre acordado.[fim pág. 153]

Deve se distinguir, deste modo, dois tipos de coesão dentro do grupo, as realizadas no interior dos subgrupos grandes, e as enfrentadas dentro dos grupos pequenos. Ambas através de uma disciplina rigorosamente admitida por todos – e, assim, até mesmo nas sociedades mais simples, pode haver uma espécie de organização com múltiplas diferenças de posição dentro de grupos e subgrupos. O que envolve, por seu turno, também, múltiplas formas disciplinares.

Finalmente, estes grupos podem agir uns em relação aos outros através de três modos:

1. a educação. A educação se dá por sexo, por idade e através das gerações, dentro da família e, seguida, de modo particular, segundo um ponto de vista religioso, dentro dos locais secretos de iniciação e, por exemplo, na Austrália central, de fratria para fratria, de sogro para futuro genro.

2. a tradição. A transmissão de acontecimentos e práticas, e das representações coletivas se fazem através dela. A família, em minha opinião, tem aqui o grande papel, porém, não é necessário exagerar sobre ele, porque nas sociedades arcaicas as crianças evadem-se da família muito depressa, especialmente as meninas para o pai e filhos para a mãe. Outro dia, em uma discussão que tive com um distinguido psicólogo sobre a formação da razão na criança, ele sustentou que a razão começa a se desenvolver nas crianças a partir dos sete e onze anos. Eu lhe respondi que este era um fenômeno desigualmente distribuído. No Marrocos, um escravo pequeno ou um filho de artesão pobre da idade de três anos, no Mellah ou no Medina , seja árabe ou judeu, ajudam o seu mestre ou o seu papai contando com dedos o número de clientes que regressam para o trançado do alfaiate ou para o fabricante de selas. Esta pequena ajuda possui noções técnicas precisas, evidentemente a mais, do que possa possuir uma menina suíça pequena, inteligente, de boa família, educada no lazer e no conforto e fora do trabalho. A razão leva a uma precocidade que não[fim pág. 154] existe nas premissas de nossa sociedade e a criança escapa muito rapidamente da infantilidade ao ser tragada pela vida séria e pelo comércio.

A instrução, assim, garante os direitos e a coesão justamente por esta interseção de processos de educação.

O costume, então, vem tolher a liberdade, porque cada subseção do clã, da família, de sexo, de idades, de gerações, tem o direito de atentar tanto sobre seus opostos como sobre seus membros. Nos clãs exógamos há, pelo menos, necessariamente, mulheres de um outro clã. O resultado não é o de que estas mulheres, por serem estrangeiras, sejam abandonadas. Há uma demarcação clara, mas de forma alguma absoluta. Na lenda de Barba Azul, ele é morto por seus cunhados, irmãos de sua última esposa, a quem sucede na chamada. Os cunhados têm o direito de envolver-se na vida das crianças e na vida da mulher, o que parece ser uma característica fundamental da vida árabe, dos Berber , da vida chinesa, da neo-caledoniana e dos indígenas da América do Norte. Costume do grupo, costume dos subgrupos, autoridade costumeira dos subgrupos cruzam-se em todos os sentidos. Nestas sociedades, a coesão se traduz em uma série de hábitos complementares que limitam uns aos outros de modos diversos: portanto, para as várias apropriações técnicas do uso do solo respondem várias formas de propriedade do solo; e para a diversidade de bens, diversas propriedades imobiliárias.

Os proprietários da caça (os Nobles, na Guine Africana) podem ser diferentes dos proprietários das reservas e das terras cultiváveis. Estes, por conseguinte, podem não ser os donos das árvores. Assim à noção de puro comunitarismo do direito da terra, podemos substituir pela noção de divisão de propriedades entre[fim pág. 155] comunidades. Divisão esta que chega até ao individualismo relativo de alguns direitos à terra (ao jardim, ao pomar) e como razão mais intensa dos direitos mobiliários.

As pesquisas que fiz sobre a divisão de direitos entre os sexos masculino e feminino me permitem indicar que há ainda outros fatos a serem descritos.

3. a noção de paz. O terceiro momento do funcionamento de todos os segmentos e de todas as seções em um social qualquer é, justamente, um fato que se encontra pouco estudado, infortunadamente, até mesmo por nós, sendo necessário restabelecer a linha de estudo. Linha de pesquisa esta, por sinal, tradicional entre os juristas de há, aproximadamente, sessenta anos. A linha de pesquisa a ser revitalizada é a expressa pela noção de paz. Contanto que haja a paz, uma sociedade pode ser coerente, harmoniosa e verdadeiramente bem disciplinada, e pela harmonia, sua força pode ser multiplicada por dez.

Sobre esta noção de paz, se encontram belas páginas no livro de Robert Hertz intitulado O Pecado e a Expiação (na Polinésia, em particular) a ser publicado. Eu poderia trazer ao conhecimento de vocês belos poemas maoris que Hertz tinha registrado e outros que ele não conhecia sobre a paz que é a harmonia. Há fatos muito bonitos sobre o clã, sobre os grupos locais e a guerra, sobre os difíceis períodos. Poderia-se dizer que esses temas legendários foram inventados pelos povos que fazem a Índia, até mesmo hoje em dia. Os períodos da vida e da história neles são divididos em períodos brancos e negros, frios e quentes. A noção de paz, que no passado os historiadores do direito (Wilda, etc.) estudaram muito bem, principalmente em relação ao direito germânico, porque nele esta noção é completamente óbvia e uniforme na moralidade (zufriede), foi depois negligenciada, e tornou-se muito pouco clara, especialmente, no tocante à paz civil.

Deixe-nos começar outra vez com documentos que poucos jovens conhecem, como por exemplo, este monumento bonito da história e do pensamento francês: a[fim pág. 156] República de Bodin. Este jurista foi, acredito, além dos outros juristas dos Valores últimos, na época das guerras religiosas, da guerra civil, o teórico da paz e, em particular, da paz do rei. Naquele momento, manteve esta importante noção próxima à mente, enquanto agora – sem fazer repreensões a colégios e faculdades que nos cerca -, ela se encontra esvaziada em torno das idéias de soberania, em vez de se especular através desta noção sobre a paz e sobre a vida harmoniosa do estado e dos subgrupos nele existentes.

Concluamos este último grupo de fatos: a paz entre subgrupos. Levantar esta questão a propósito das sociedades arcaicas não é para nós inútil à compreensão de nossas sociedades, acredito que, até mesmo, talvez nos permita – aquilo que raramente nos permitimos – propor conclusões sobre política moral.

A questão sobre a harmonia normal entre os sexos, idades e gerações, e sobre os diversos subgrupos (clãs, castas, classes, confraternidades, etc.), uns em relação aos outros, a questão da harmonia interior para cada um deles e relação destas várias harmonias para a harmonia geral e as moralidades normais da sociedade, são questões que se encontram extintas do horizonte sociológico. É necessário, contudo, recolocá-las no primeiro plano de pesquisa e discussão.

Como se poderia começar esta proposição acima? Fora das conclusões dos etnógrafos que indiquei durante este trabalho, em uma determinada vida tribal e distinguindo claramente as várias sociedades umas das outras – por exemplo, as sociedades Malgaches e as sociedades africanas – neste ponto, eu creio que nós, sociólogos, se seguirmos as indicações sugeridas, temos agora, por um lado, os meios de recolocar os problemas do passado e, por outro lado, um meio também para passar para os problemas do presente. Esta visão da necessidade de subgrupos cruzados se aplica a nossas sociedades. Eu sempre lembro que Durkheim pensou, no início de suas pesquisas, que a solução para o problema do individualismo e do socialismo consistiria no estabelecimento de uma força intermediária, entre a[fim pág. 157] anarquia individualista e o poder esmagador do Estado, o grupo profissional. Este agrupamento natural tomaria o lugar da grande família que há pouco falamos e, até mesmo, do grupo doméstico que se decomporia, até não versar mais do que a família conjugal.

Eu não acredito, então, ser infiel ao pensamento de Durkheim quando proponho, que sejam atenuadas, inicialmente, as idéias atuais a respeito do amorfismo original das sociedades e, depois, ao contrário, complexificar as idéias relativas à necessidade de harmonizar, cada vez mais, as nossas sociedades modernas. É necessário criar um número de subgrupos, que constantemente reforcem uns aos outros, e indiquem e fundem os inexistentes ou ainda insuficientemente existentes, os profissionais em particular. Deve-se deixar que eles ajustem-se um aos outros, naturalmente, se possível, onde necessário sob a autoridade do Estado, em todo caso, para o seu conhecimento e sob seu controle.[fim pág. 158]

Tradução de Mauro Guilherme Pinheiro Koury

Notas

[*] – Comunicação apresentada ao Instituto Francês de Sociologia. Extraida do Bulletin de l’Institut Français de Sociologie, I, 1931.

[**] – Povos aborígenes da região sul do Canadá (N.T.).

Aula 18: Marcel Mauss e o “Ensaio sobre a Dádiva”

No seu “Ensaio sobre a Dádiva” Marcel Mauss refere-se aos “sistemas de prestações totais”. Nesse contexto faz alusão ao “potlatch”, um célebre sistema de que ele considera “prestações totais de tipo agonístico” (ou seja, que implicam confronto). Nesse exemplo o autor refere dados etnográficos das populações Haida e Tlingit, do noroeste americano. Em parte posterir do texto refere ainda dados do potlatch noutras populações da região, entre as quais os Kwakiutl, que se tornaram também bastante conhecidos na literatura antropológica.

Noto que o “Ensaio sobre a Dádiva” se encontra publicado em Sociologia e Antropologia, bastando “clicar” na ligação colocada.

Aqui deixo alguns dados sobre essas populações e sobre estas cerimónias:

A zona povoada por Tinglit, nicho da etnografia sobre o “potlatch”, sistema de dádivas renomado.

A zona povoada pelas populações Haida

Mapa dos territórios Kwakiutl

Deixo também alguns dados audiovisuais, para contextualização do texto.

Edward Curtis photo of a Kwakwaka’wakw potlatch with dancers and singers

Fotografia de Edward S. Curtis. A galeria das suas célebres fotos sobre populações ameríndias está aqui. Recomendo a sua demorada visita.

Tlingit people gather on beach for potlatch, village of Kok-Wol-Too, Alaska, 1895
Photographer Winter, Lloyd
Pond, E. Percy

Fotografia encontrada nesta galeria.

Fotografia: Nowell, Frank H. (1906)
Tlingit woman named Kaw-Claa wearing her potlatch dancing costume, Alaska,
University of Washington Libraries Digital Collections: NA2193

Três chefes Chilkat, um grupo Tlingit, em traje cerimonial para potlatch.

Aqui fica um pequeno filme (da época) sobre a cerimónia potlatch.

O último grande potlatch (texto em inglês).

No capítulo I Mauss aborda com algum detalhe os contextos polinésios, com especial referência a Samoa e à Nova Zelândia (Maori). Aqui ficam alguns detalhes:

Samoa

Encontram a versão em inglês desta página sobre a Nova Zelândia.

Relatórios das aulas práticas:

a) Relatório sobre a aula dedicada à análise do “Ensaio Sobre a Dádiva”, de Marcel Mauss; grupo da turma pós-laboral;

b) Relatório sobre a aula dedicada à análise do “Ensaio Sobre a Dádiva”, de Marcel Mauss; grupo da turma laboral

Aula 19: abordagem estruturalista

Lévi-Strauss: a abordagem estruturalista e o conceito de Reciprocidade

levi-strauss
Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

KUPER, A. (2008), A Reinvenção da Sociedade Primitiva. Transformações de Um Mito, Recife, Editora Universitária, pp. 245-272

LÉVI-STRAUSS, Claude, As Estruturas Elementares do Parentesco, cap. 1, Rio de Janeiro, Martins Fontes

Aula 20: desde o totemismo

A abordagem estruturalista às modalidades de pensamento

tot

LEVI-STRAUSS, Claude (1986) “A ilusão totémica”, O Totemismo Hoje. Lisboa, Edições 70

Aula 20: palestra sobre Lévi-Strauss

Materiais complementares para a abordagem à obra de Claude Lévi-Strauss, que permitem um aprofundamento do conhecimento. Uma palestra do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro dedicada ao autor. Deixo também uma entrevista de Viveiros de Castro sobre Lévi-Strauss.


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Aula 21: os universais inconscientes em Lévi-Strauss

Interpretação de áreas culturais e de universais inconscientes

masks

LEVI-STRAUSS, Claude (1981) “Os Segredos de Uma Máscara”, A Via das Máscaras, Lisboa, Presença

Aula 21: Lévi-Strauss

Entrevista realizada em 1972 e legendada no muito entendível castelhano.

 
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Aula 22: Leach e a releitura do estruturalismo

Edmund Leach, a releitura do estruturalismo na Antropologia.

leach

Edmund Leach (1910-1989)

LEACH, Edmund (1961), Rethinking Anthropology, cap. I

Aula 22: Entrevista com Edmund Leach

Aula 23: a recuperação do conceito de evolução

A recuperação do conceito de Evolução.

Julian_Steward

Julian Steward (1902-1972)

 

Steward, J, (1958), “Problems of Cultural Evolution”, Evolution, vol. 12, nº2, 206-210

STEWARD, Julian [1968] “Causal Factors and Processes in the Evolution of Pre-Farming Societies”, LEE & DEVORE (eds) (1968) Man the Hunter. Chicago, Aldine Publishers